Ele já desfilou para o
estilista Ricardo Almeida e está na lista dos 25 homens mais sexy do Brasil.
Apesar de todas as credenciais de celebridade, o verdadeiro lugar do
paulistano Alex Atala, 37 anos, é na cozinha. Apresentador do Mesa para Dois, do canal a
cabo GNT, Atala foi recentemente eleito o melhor chef de São Paulo pelo
trabalho à frente do seu conceituadíssimo e badalado restaurante D.O.M. .Ex-punk
e ex-DJ do Rose Bom Bom (boate ícone da noite paulistana dos anos 80.
Cozinhar é uma
arte?
Cozinhar é muita coisa, trabalhar é outra. Fazer comida e servir implica uma
tremenda generosidade. Você se entrega para o prazer das pessoas, é muito
prazeroso. Trabalhar com cozinha é outro mundo.
Quais são as
diferenças?
Cozinhar implica praticamente só prazer e a possibilidade de uma frustração.
Quando você está atuando profissionalmente na cozinha, você sofre duas
pressões. A primeira é pela perfeição: ficar bom ou muito bom é só a sua
obrigação. A segunda é a do tempo: a pessoa não veio assistir a um espetáculo,
ela veio para comer, e a fome e o mau humor estão muito próximos. As pessoas
vêm com fome, uma expectativa alta, e você tem que servir uma comida muito
boa e muito rápido. Multiplique isso pelo número de mesas, pelo de pessoas e
pratos que elas vão experimentar, e você vai ver que isso é um ponto de
tensão absurda. Essa tensão rouba muito a beleza de cozinhar.
Hoje você é uma
celebridade. Essa exposição é boa para divulgar o chef Alex Atala?
Tenho um duplo sentimento com essa coisa de ter virado um personagem. O que
implica a palavra celebridade não me é bem-vindo. Mas foi muito prazeroso,
por exemplo, desfilar para o (estilista) Ricardo Almeida. Essas ações tem o ônus e o bônus. O reconhecimento
profissional é bônus. O lado celebridade é mais ônus do que bônus. O excesso
de exposição não me encanta. Não é legal também ter uma imagem distorcida do
que você é e do que você faz todo dia. Infelizmente acho que acabo externando
uma riqueza que não tenho. As pessoas acham que o restaurante é uma fonte de milhões,
e não é. É um negócio como outro qualquer, não é mais importante nem mais
rentável do que uma loja.
Como se interessou
por cozinhar?
Minha história é nada ortodoxa. Era garotão, tinha 19 anos e trabalhava como
DJ em São Paulo para viver. Juntei uma grana e fui para a Europa. No meio da
viagem meu dinheiro acabou, e eu queria ficar. Comecei a pintar paredes. Mas,
para conseguir um visto, tinha que fazer um curso e resolvi fazer uma escola
de cozinha porque tinha um amigo que também fazia. Atirei no que vi e acertei
no que não vi.
O que gosta de
comer no dia-a-dia?
A boca é um instrumento do cozinheiro. Como de tudo e tenho um tremendo
prazer em comer a coisa mais simples. Adoro levar meu filho ao estádio de
futebol e acho que pago caro pra caramba quando compro aquele cachorro-quente
onde o pão é ruim, a salsicha é ruim.
Mas é um tremendo prazer comer um hot-dog ruim e caro com meu filho no
estádio. É pelo momento. Prefiro mil vezes comer uma comida ruim com quem me
dá prazer a comer bem com um bando de chatos. Comer não é só o que está no
prato, é um momento de prazer e implica muito mais do que a boca, é o que
está em volta.
Qual a coisa mais exótica que já comeu?
Já comi muita coisa esquisita na vida. Meu critério de escolha para
viagens é: quanto pior, melhor. Na Amazônia, comi turus, que eu acho
sensacional. É um verme que dá nos troncos de madeira no mangue. Você tira o
verme do mangue e come, vivo e cru, na hora. Acho mágico. Paladar é um
horizonte para ser aberto. Uma criança não nasce gostando de amargos, de
pimentas, de alcoólico. Com os anos, experimentando, se expondo a esses
sabores, a gente começa a tolerar, para depois apreciar.
Qual sua culinária preferida?
Gosto muito de comida rústica, não importa o lugar do mundo. Receitas regionais
me emocionam. O sabor da comida de alma, secular, é uma referência muito
grande no meu trabalho.
Por que cozinha estrelada é sempre tão cara?
Caro e barato são conceitos relativos. Caro é o que você paga e não
recebe. Se alguém vem ao D.O.M. e, independente da conta, sai frustrado, o
D.O.M. é caro. Agora, se veio ao D.O.M., comeu bem, pagou bastante dinheiro,
mas saiu feliz, não pagou caro. Por quê? Porque tenho o cara que planta ervas
para mim, uma equipe de 23 cozinheiros, uma equipe de sala de quase 30
pessoas, um escritório para organizar tudo. Tem mais: imagine um peixe de um
quilo. Tem o miolo do filé que é bonito, um pedaço perto da cabeça e outro
perto do rabo. Não vou fazer desconto para o cliente que ficar com o rabo,
então não posso servi-lo. Tenho que servir o miolo do filé, com o mesmo
padrão, para todos. De um saco de laranja às vezes você tira só dez laranjas.
Você tem que buscar os melhores produtos para ter os melhores resultados. Por
isso é caro.
Você realmente cozinha no D.O.M.?
Toda noite estou dentro da cozinha. Durante o dia, às vezes me programo para
estar dentro da cozinha, mas acontecem coisas que obrigam a deixá-la. Meu dia
é muito mais feliz e saudável quando fico na cozinha. Eu fumo, mas não gosto
de fumar. Tenho uma relação ruim com o cigarro – preciso dele, mas não gosto.
Quando estou dentro da cozinha, obviamente eu não fumo e nem dou escapadinhas
para fumar. Agora, me tranca no escritório e me deixa lá, fazendo contas. Eu
como um maço de cigarros.
Seus filhos gostam de brincar de cozinhar?
A menina brinca de panelinha, lógico, o Tomás às vezes fala: “Vou cozinhar no
D.O.M.”. O Pedro, o mais velho, tem outra relação com a cozinha. Se algum
deles for cozinheiro, vou ajudar muito, mas espero que não sejam. Não quero
que eles cresçam com obrigações, nem de ser cozinheiro nem de comer só coisas
maravilhosas. Então, levo meus filhos ao McDonald’s, e como junto. Não sou
aquele pai que leva e diz: “Isso é uma porcaria”. Como junto porque é um
prazer estar vivendo aquele momento com eles. Não quero que eles sigam o
ofício por causa da devoção que você tem de ter, deixar de ter vida pessoal
em favor de uma profissão. As relações equilibradas são as perfeitas, e acho
minha relação com cozinha descompensada.
Tem saudades dos tempos de DJ?
Foram tempos ótimos, mas pertencem a um momento da minha vida. Fui ao Rose Bom
Bom depois que reabriram, estava superbacana, mas... Só seria igual se
montassem uma máquina do tempo. Hoje em dia adoro jazz. Graças a Deus sou um
cara que fui abrindo meus horizontes, não só no âmbito gastronômico, mas
também no musical. Fui punk, achava que quem tinha dinheiro não prestava.
Hoje, consigo achar gente boa e ruim em toda parte. Não sou mais um cara que
segrega, nem na música, nem gastronomicamente, nem socialmente.
Você é formado em gastronomia?
Sou um cara que deu certo de tanto fazer errado. Terminei o colegial depois
de cinco expulsões. De um mesmo colégio fui expulso duas vezes: os caras me
perdoaram e fui reincidente. Era um bom colégio, a média para passar era 3,
fui um bom aluno (risos). Fiz um curso técnico, minha formação de
cozinheiro é técnica, não fiz faculdade.
Quem cozinha na sua casa?
Eu adoraria cozinhar em casa, só que estou no D.O.M¹. seis dias por semana, no
almoço e no jantar. Tenho um dia por semana para dar uma descansada, ficar
com os filhos. Às vezes, aos domingos, faço um almoço para os amigos e à
noite, em vez de pedir pizza, o que faço com bastante freqüência, vou para a
cozinha e faço alguma coisa. A Márcia sabe cozinhar, mas acho que ela morre
de medo de fazer comida para mim. É uma relação que ela ainda não venceu (risos)
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(1) D.O.M (acrônimo da locução latina Deo
Optimo Maximo ), cujo projeto arquitetônico é de Ruy Ohtake. O D.O.M tornou-se um sucesso de público e crítica
recebendo diversos prêmios.
Cardápio:
Prato Principal: Bacalhau
com Sabores Tostados
Ingredientes:
- Bacalhau:
- 600 g bacalhau semi salgado, cortado em cubos de 50 g cada;
- Azeite até cobrir o bacalhau.
- Farofa:
- 04 colheres (sopa) de manteiga
- 16 colheres (sopa) de farinha de mandioca amarela torrada
- Sal a gosto
- Tomatinhos:
- 12 tomates cerejas
- 300 ml conhaque
- 320 ml mel
- 160 ml vinagre
- 16 gotas tabasco
Tapenade:
- 50 g de azeitonas pretas chilenas sem caroço
- 01 cebola média
- 15 g de alcaparras bem lavadas para retirar o excesso de sal
- 01 lata de anchova
- 30 ml de azeite
- Salsa
aromatizada com alho:
- 01 colher (sopa) de salsa crespa picada grosseiramente
- 05 gotas de azeite de alho
Modo de Fazer:
Bacalhau:
Deixe o bacalhau em água fria por mais ou menos três horas para tirar o
excesso de sal.
Esquente o azeite até 60ºC e coloque o bacalhau de seis a oito minutos
no azeite, até o centro do bacalhau ficar quente e o peixe super macio.
Retire e coloque para grelhar em uma frigideira antiaderente somente o
lado da pele com azeite, até a pele ficar crocante.
Farofa:
Derreta a manteiga em fogo médio, adicione o sal e depois a farinha.
Mexa para desfazer as pelotas.
Salteie até ficar crocante, mais ou menos 1 minuto.
Tomatinhos:
Misture todos os ingredientes – menos os tomates – em uma tigela.
Bata tudo até ficar homogêneo.
Para retirar a pele dos tomates, faça um corte bem superficial em
formato de X no fundo dos tomates, e escalde em água fervente por 10 segundos
para soltar a pele.
Puxe a pele delicadamente para cima, sem soltá-la totalmente e deixar
marinando por 15 minutos.
Na hora de servir, leve ao forno alto até secar a pele do tomate.
Tapenade:
Pique muito bem todos os ingredientes, adicione o óleo da lata da
anchova e o azeite e misture até formar uma pasta homogênea.
O ideal é deixar desenvolvendo os sabores por uns 3 dias.
Salsa
aromatizada com alho:
Misturar os dois e colocar em cima do bacalhau.
Azeite virgem extra e pimenta do reino moída a gosto.
Acompanhamento: Aligot (purê elástico)
Ingredientes:
- 200 g de Purê de Batata
- 100 g de queijo Minas padrão ralado
- 100 g de queijo gruyére ralado
- 01 kg de batatas
- 200 ml de creme de leite fresco
- 100 ml de leite tipo A
- 45 g de manteiga
- Sal
Modo de Fazer:
Aligot
Em uma panela pequena, aqueça o purê de batata, em fogo baixo.
Acrescente os queijos ralados, alternadamente começando pelo queijo
Minas padrão e, vá acertando o ponto, enquanto mexe energicamente com uma
colher de pau, até que esteja liso e elástico.
Purê de batata
Cozinhe as batatas em água com sal até começarem a abrir.
Descasque-as ainda quente.
Esprema as batatas no passador de legumes e depois em uma peneira bem
fina.
Numa outra panela aqueça a manteiga, o creme de leite e o leite.
Aligot:
Em uma panela pequena, aqueça o purê de batata, em fogo baixo.
Acrescente os queijos ralados, alternadamente começando pelo queijo
Minas padrão e, vá acertando o ponto, enquanto mexe energicamente com uma
colher de pau, até que esteja liso e elástico.
Acrescente as batatas amassadas e cozinhe em fogo bem baixo por
aproximadamente 20 minutos.
Sobremesa: Pudim de Leite ao perfume de Priprioca
Caramelo de priprioca
Ingredientes
- 320 g de açúcar
- 80 ml de água
- 20 ml de essência de priprioca
Modo de Fazer:
Faça um caramelo com o açúcar a 142°C aproximadamente e adicione a essência de
priprioca e a água.
Pudim
Ingredientes
- 80 g de gema pasteurizada
- 60 g de açúcar
- 250 ml de creme de leite
- 250 ml de leite
- 2 folhas de gelatina
Modo de Fazer:
Aquecer o leite e o creme de leite (não ferver).
Bater as gemas com o açúcar até que fiquem esbranquiçadas.
Hidratar as folhas de gelatina e dissolvê-las no leite previamente aquecido.
Misturar aos poucos o leite nas gemas e coar.
Forrar com o caramelo o fundo de uma forma de silicone com esferas de 30ml.
Despejar o líquido do pudim sobre o caramelo.
Assar a 90°C no vapor por 10 a 12 minutos.
Priprioca,
Erva
típica da região amazônica, a priprioca é amplamente utilizada na indústria de
cosméticos, especialmente em perfumes. Para o chef Alex Atala, entretanto, o
vegetal tem outra utilidade: confere um toque especial aos pratos.
"Conheci a priprioca viajando pela Amazônia, onde a planta faz parte da
cultura local. Pesquisei sobre ela e percebi a possibilidade de usá-la na
gastronomia", conta ele.
 Embora ainda não exista autorização para as indústrias de alimentos
comercializarem a priprioca com este fim, do ponto de vista legal a erva pode
entrar como ingrediente de receitas. "A raiz da priprioca é a parte que
serve para a gastronomia. Dela, podemos extrair um álcool ou um óleo. Trata-se
de um novo sabor, de aplicação semelhante a da baunilha", explica Atala.
A versatilidade do ingrediente é outra vantagem da priprioca, que vai
bem em receitas doces ou salgadas. "Combina com derivados de leite, carnes
em geral, fígado e salame", ensina o chef.
A
priprioca é uma raiz amazônica de aroma leve e ligeiramente picante. É ela que
dá o sabor residual ao brigadeiro, com
uma ardência e um retrogosto sutis e amadeirados.
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